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O relatório da Polícia Federal que resultou na Operação Narco Fluxo aponta que MC Ryan SP utilizava a indústria da música (cachês, despesas de shows e pagamento de royalties) para lavar dinheiro proveniente de rifas e casas de apostas ilegais.
De acordo com o relatório da PF ao qual o g1 teve acesso, a indústria fonográfica ocupa um papel central no esquema. Segundo as investigações, é por meio dela que MC Ryan SP consegue misturar valores lícitos e ilícitos. Em suma, a operação seria:
Parte dos valores que entra nas contas das empresas do artista têm origem ilegal, como bets e rifas ilegais, e são responsáveis por custear despesas de equipe;
Também há valores de produtoras do funk, como a GR6, que realizou depósitos sem lastro contratual
Os valores ilegais se misturam no fluxo de quantias legais, como pagamentos feitos pela gravadora Sony, dando “credibilidade” para as movimentações;
Com as quantias lícitas e ilícitas misturadas, a última etapa da lavagem é a aquisição de bens de luxo para o patrimônio pessoal do cantor
No dia 15 de abril, a Operação Narco Fluxo cumpriu 33 de 39 mandados de prisão temporária e 45 de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná e Goiás, além do Distrito Federal. Os cantores MC Ryan SP e MC Poze do Rodo estão entre os presos.
Na quinta-feira (23), após idas e vindas, a Justiça converteu as prisões de Ryan, Poze e outros investigados em temporária — ou seja, sem prazo fixo para terminar.
🔍A prisão temporária é usada no começo das investigações, quando a polícia ainda está reunindo provas. Ela tem prazo definido, geralmente de 5 ou 30 dias, e pode ser prorrogada em alguns casos. Já a preventiva não tem um prazo fixo. Ela é determinada por um juiz quando há risco, por exemplo, de a pessoa atrapalhar as investigações, fugir ou continuar cometendo crimes.
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Operação Narco Fluxo e a relação com a música
De acordo com as investigações da PF, o dinheiro sujo vem de rifas e bets ilegais. Esses valores, segundo a PF, estão entrando no ecossistema do MC Ryan SP e sendo direcionados para o pagamento de despesas corriqueiras de um artista, como fretamento de ônibus, diárias e alimentação da equipe.
Além disso, produtoras como a GR6 repassam dinheiro direto para a pessoa jurídica de MC Ryan. A polícia aponta que os valores, um deles na casa de R$ 1,5 milhão, não possuem lastro contratual verificável, sendo pagamentos fictícios ou, como diz a investigação, “simulação de despesas”.
Entre as quantias lícitas que entram no fluxo de movimentações de Ryan SP, estão os pagamentos de gravadoras. A polícia aponta, por exemplo, o repasse de R$ 114.243 da gravadora Sony para a produtora do cantor.
O funkeiro MC Ryan SP
Divulgação
Para a Polícia Federal, esses pagamentos da indústria fonográfica servem para dar “credibilidade” à conta, dissimulando os outros milhões ilícitos que passam por esse ecossistema.
Ainda segundo o relatório, a última etapa do processo de lavagem se dava com a compra de bens de alto luxo, como imóveis em condomínios fechados, veículos esportivos e joias. Depois de percorrer todo o fluxo, o dinheiro era diretamente destinado a esses bens.
Entenda a Operação Narco Fluxo
O MC Ryan SP, o MC Poze do Rodo e Raphael Sousa Oliveira, dono do perfil ‘Choquei’, das Redes Sociais.
Montagem/g1/Reprodução/Redes Sociais
A Operação Narco Fluxo foi resultado de uma investigação que começou muito antes dos mandados de busca e prisão.
Segundo a Polícia Federal, o ponto de partida foi a análise de arquivos armazenados no iCloud, sistema de armazenamento em nuvem da Apple, do contador Rodrigo de Paula Morgado, obtidos durante uma operação anterior, a Narco Bet, que já era derivada da Operação Narco Vela, ambas deflagradas em 2025.
O g1 reuniu o que se sabe sobre o caso até agora.
Como a investigação começou?
O que dizem as defesas?
O que foi apreendido?
Qual era o papel dos influenciadores?
Quem eram os operadores do esquema?
Qual seria o papel de MC Poze do Rodo no esquema?
Qual seria o papel de MC Ryan SP no esquema?
Por que o iCloud foi importante?
Como a investigação começou?
Da esquerda para direita, MC Ryan SP, Poze do Rodo e Rodrigo Morgado
Reprodução/YouTube e Instagram
A investigação atual nasceu de provas reunidas durante a Operação Narco Bet, de outubro de 2025, instaurada após a Narco Vela, de abril do mesmo ano. As operações apuravam lavagem de dinheiro ligada a apostas, tráfico internacional de drogas, grandes quantias em espécie, transferências bancárias e criptoativos.
Segundo a decisão judicial, o núcleo de inteligência da PF analisou arquivos do iCloud de Rodrigo de Paula Morgado, identificado como contador e operador financeiro do grupo.
A partir disso, os investigadores encontraram indícios de uma organização criminosa voltada à lavagem de capitais, com agentes responsáveis pela captação, internalização, custódia e redistribuição de dinheiro em espécie.
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Como um backup no iCloud derrubou o esquema que levou à prisão de MC Ryan SP e MC Poze do Rodo
Por que o iCloud foi importante?
Segundo investigadores, o material armazenado na nuvem permitiu cruzar extratos, comprovantes, conversas, registros societários, contratos, procurações e documentos financeiros.
Na prática, o backup do iCloud virou uma espécie de “mapa” da organização criminosa. Foi a partir dele que a PF conseguiu identificar a relação entre operadores financeiros, empresas de fachada, influenciadores e artistas. Rodrigo depositava grande confiança na segurança digital do iCloud, o que acabou permitindo à Polícia Federal mapear a organização
O próprio Rodrigo de Paula Morgado é apontado pela PF como peça-chave do grupo. Segundo a decisão, ele articulava transferências bancárias, auxiliava na proteção patrimonial de MC Ryan SP e fazia repasses em nome de terceiros, além de prestar serviços de gerenciamento financeiro, ocultação patrimonial e evasão fiscal.
A Justiça autorizou, inclusive, novas apreensões de dados armazenados em nuvem, como iCloud e Google Drive, além de celulares, HDs, notebooks e smartphones, com acesso imediato aos conteúdos durante as buscas.
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Funkeiros MC Ryan SP e MC Poze do Rodo; e influencers Chrys Dias e Raphael Sousa Oliveira foram presos pela PF
Reprodução/Redes sociais
Operação da PF prende Mc Ryan SP e Poze do Rodo
Qual seria o papel de MC Ryan SP no esquema?
Segundo a decisão judicial, Ryan Santana dos Santos, nome de MC Ryan SP, foi identificado como líder e principal beneficiário econômico da engrenagem.
A PF afirma que ele usava empresas ligadas à produção musical e ao entretenimento para misturar receitas legítimas com recursos de apostas ilegais e rifas digitais.
Ainda segundo a investigação, Ryan teria montado mecanismos de blindagem patrimonial, transferindo participações societárias para familiares e terceiros, além de usar operadores financeiros para afastar o dinheiro ilícito de sua pessoa física antes de reinseri-lo na economia formal.
Segundo a PF, os recursos eram reinvestidos em imóveis, carros de luxo, joias e outros ativos de alto valor. A Justiça autorizou a apreensão de dinheiro em espécie acima de R$ 10 mil, joias, relógios, carros, motos, embarcações, aeronaves e outros itens de luxo encontrados com os investigados.
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Qual seria o papel de MC Poze do Rodo no esquema?
Segundo a decisão judicial, Marlon Brendon Coelho Couto da Silva, nome de registro de MC Poze do Rodo, aparece vinculado a empresas e estruturas financeiras relacionadas à circulação de recursos oriundos de rifas digitais e apostas ilegais.
A investigação aponta que ele integrava a engrenagem financeira da organização ao lado de outros operadores e empresas usadas para captar, fragmentar e redistribuir dinheiro. Uma das empresas ligadas ao funkeiro e incluídas na lista de bloqueios judiciais é a EMPOZE – Editora, Gravadora e Prestação de Serviços Ltda.
Segundo a PF, Poze do Rodo foi preso em casa, em um condomínio de luxo no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, e pode responder por crimes como lavagem de dinheiro, associação criminosa e evasão de divisas.
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Colar com imagem de Pablo Escobar e armas foram apreendidos pela PF contra MC Ryan SP e MC Poze do Rodo
Divulgação/PF
Quem eram os operadores do esquema?
A investigação descreve uma estrutura com funções bem definidas.
Tiago de Oliveira é apontado como braço-direito de MC Ryan SP, atuando como procurador e gestor financeiro do artista. Segundo a PF, ele centralizava recursos, redistribuía dinheiro a operadores e participava de negociações imobiliárias em favor do cantor.
Alexandre Paula de Sousa Santos, conhecido como Belga ou Xandex, teria feito a ponte entre plataformas de apostas e empresas ligadas a Ryan, recebendo dinheiro de processadoras de pagamento e repassando os valores para o núcleo do grupo. A PF afirma que ele realizava centenas de transferências fracionadas, prática conhecida como “smurfing”.
Outros investigados, como Arlindma Gomes dos Santos, Lucas Felipe Silva Martins e Sydney Wendemacher Junior, aparecem como operadores logísticos, “testas de ferro” e titulares formais de bens ligados ao cantor.
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Como funcionava o esquema?
Segundo a PF, o dinheiro tinha origem em bets ilegais, rifas clandestinas, estelionato digital e tráfico internacional de drogas.
Os recursos eram pulverizados em várias contas bancárias para dificultar o rastreamento. Depois, passavam por operadores financeiros, empresas de fachada, intermediadoras de pagamento e criptomoedas.
A investigação aponta que o grupo usava técnicas típicas de lavagem de dinheiro, como fracionamento de depósitos, contas de passagem, empresas de fachada, laranjas, holdings, triangulação de receitas, criptoativos e evasão de divisas.
Segundo a Justiça, a organização operava com características de uma instituição financeira clandestina, usando mecanismos próprios de compensação, controle e registro.
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À esquerda, MC Ryan SP, apontado como líder da organização criminosa; à dir., Raphael Sousa Oliveira, dono da ‘Choquei’
Reprodução/ Redes sociais
Qual era o papel dos influenciadores?
A PF afirma que influenciadores e páginas de grande alcance eram usados para divulgar apostas, rifas e melhorar a imagem pública do grupo.
O influenciador Raphael Sousa Oliveira, criador da página Choquei, é apontado na decisão como operador de mídia da organização. Segundo a PF, ele recebia valores diretamente de Ryan, Tiago de Oliveira e José Ricardo dos Santos Junior para divulgar conteúdos favoráveis ao cantor, promover plataformas de apostas e rifas e atuar na mitigação de crises de imagem.
Já a influenciadora Chrys Dias e outros nomes ligados a marketing digital aparecem na investigação como financiadores, divulgadores ou intermediários de valores oriundos de rifas digitais.
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O que foi apreendido?
Durante a operação, a PF apreendeu carros de luxo, relógios, joias, armas, dinheiro em espécie, documentos e equipamentos eletrônicos.
Um dos itens que mais chamou atenção foi um colar com a imagem de Pablo Escobar dentro do mapa do estado de São Paulo, encontrado na casa de MC Ryan SP.
A Justiça também determinou o bloqueio de bens e valores até R$ 1,63 bilhão, além do bloqueio de criptomoedas em corretoras como Foxbit, Mercado Bitcoin, Binance e Coinbase.
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O que dizem as defesas?
A defesa de MC Ryan SP afirmou que ainda não teve acesso aos autos, que correm sob sigilo, mas declarou que todas as transações financeiras do cantor são lícitas e possuem origem comprovada.
Já a defesa de MC Poze do Rodo disse desconhecer o teor do mandado de prisão e afirmou que vai se manifestar na Justiça assim que tiver acesso ao processo.
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Familiares de MC Ryan vão à porta de presídio pedir liberdade para funkeiro após habeas corpus

